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Mitigação do uso de agrotóxicos em Minas Gerais

A necessidade de uma maior produção de alimentos seguros para atender ao crescimento da população mundial tem demandado maiores avanços  tecnológicos para incrementar a produção agrícola, de modo a viabilizar a implantação de agrossistemas em áreas antes consideradas marginais à produção, bem como ampliar a produtividade nas que já produzem. Para atender a esta demanda crescente por alimentos, é preciso que haja um aumento controlado do emprego de bio e quimiotecnologias. Desde então, os agrotóxicos passaram a ser empregados de maneira difusa, consistindo nos instrumentos mais populares para o controle de organismos responsáveis pela quebra de produtividade nas lavouras agrícolas.

Sabe-se que a utilização indistinta de agentes químicos biocidas desencadeia processos de contaminação em todos os níveis da organização trófica, com consequências, na maioria das vezes, irreversíveis. Para o homem, de maneira direta, os agrotóxicos podem causar efeitos perniciosos, como a intoxicação ocupacional, e de forma indireta, através da ingestão de alimentos contaminados ou pela exposição a condições de risco. De acordo com o destino ambiental e o nível de abrangência da poluição, as moléculas agroquímicas podem render externalidades e impactos ambientais negativos de diferentes amplitudes, cujas consequências podem comprometer a subsistência dos sistemas ecológicos naturais ou artificiais em uso atual ou futuro. 

O Brasil assumiu, em 2008, a liderança mundial do consumo de agroquímicos, com volume comercializado de ingredientes ativos igual a 673 milhões de toneladas. Isso equivale a US$ 7,1 bilhões, mais que o dobro do movimentado no ano de 2003. O aumento do consumo dos agrotóxicos se deu em função das inovações tecnológicas dos sistemas agrícolas, bem como pela demanda por novas fontes de energia limpa e renovável proveniente de plantas produtoras de biocombustíveis.

Seguindo a mesma tendência, o Estado de Minas Gerais alcançou, no ano de 2009, a 6ª posição entre os que mais consumiram agrotóxicos no Brasil. Em contrapartida, em 2010/2011 chegou a ocupar o  2º lugar na produção de feijão e cana-de-açúcar, além da 3ª posição na produção de milho. O milho, assim como o morango, a batata e o tomate, estão  entre as culturas que mais requerem controle de pragas, perdendo apenas para a cultura da soja.

O agrotóxico mais consumido em Minas Gerais, em 2009, foi o atrazine, que é um dos herbicidas mais utilizados mundialmente na cultura do milho e se não for usado corretamente, pode ser muito prejudicial ao meio ambiente. Dos produtos formulados comercializados, 56% são da classe toxicológica II.

Em relação aos problemas causados pelo uso de agroquímicos, foram registradas, em 2010, 10.490 intoxicações, de  acordo com o Sistema Nacional de Informações Tóxico Farmacológicas (SINITOX). Em 2011, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) divulgou, através do relatório do PARA (Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos de Alimentos), o ranqueamento dos alimentos mais contaminados por agrotóxicos no ano de 2010. Nos 18 alimentos analisados, constatou-se contaminação por resíduos de produtos comerciais não recomendados pelo MAPA, bem como por agrotóxicos registrados. Dentre as culturas, em ordem decrescente, verificou-se que o pimentão, o morango e o pepino encabeçaram a lista das amostras analisadas contaminadas,  com 91, 63 e 58% de resíduos acima do permitido pela legislação brasileira, respectivamente.

O emprego incorreto de produtos químicos não recomendados para determinadas culturas requer ações de ordem política, prática e técnica, no sentido de subsidiar produtores e consumidores com informações em relação ao uso racional para manutenção da sustentabilidade dos agrossistemas. Tais medidas, em face dos relatos de prejuízos decorrentes do uso inadequado dos agrotóxicos em todo mundo, podem contribuir para novas concepções de modelos de produção e educação para a sociedade como um todo.

Nesse sentido, o desenvolvimento de metodologias que propiciem o uso correto de substâncias agrotóxicas pode ser muito útil. Dentre essas, a modelagem matemática, constituída por parâmetros pré-estabelecidos se mostra uma ferramenta prática na tomada de decisão e estabelecimento de ações estratégicas. Em planos de ações governamentais, que incentivem a sustentabilidade das atividades agrossilvopastoris, tais instrumentos podem ser utilizados como indicadores, bem como para nortear o desenvolvimento de ações estratégicas de cunho político, técnico, econômico, social e ambiental.

A Embrapa Milho e Sorgo, em parceria com a Secretaria Estadual de Agricultura e Desenvolvimento Sustentável do Estado de Minas Gerais e seus filiados, o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), trabalharam conjuntamente no desenvolvimento e na validação de uma metodologia para avaliar e/ou classificar o potencial de risco do uso de agrotóxicos para a mitigação e prescrição do uso destes agentes visando avaliar os níveis toxicológicos e os impactos sociais e ambientais a partir das propriedades rurais monitoradas, com base na comparação de resultados anteriores, considerando-se os níveis toxicológicos e ambientais dos produtos utilizados. Esta metodologia consiste na ponderação dos principais aspectos que envolvem a dinâmica dos agrotóxicos, no âmbito ecotoxicológico e ambiental utilizando-se dos aspectos legais, técnicos e práticos conhecidos.

Após o estabelecimento dos parâmetros a serem utilizados e os arranjos a serem aplicados, foi definida a equação do modelo a ser utilizada. Após esta definição, procedeu-se à validação da metodologia proposta, iniciada pela coleta de informações reais em propriedades rurais mineiras, processamento e parametrização dos dados compilados (porque nem todas as informações permitiam aplicação direta no modelo proposto).

Utilizando informações de produtores de morango cadastrados no programa de alimento seguro do Instituto Mineiro de Agropecuária, verificou-se que estes estavam utilizando 13 formulações comerciais dispostas em diferentes classes, ambiental e toxicológica, compostas por 12 ingredientes ativos que, por sua vez, constituem nove famílias químicas (Tabela 1). Dentre tais formulações, 7,7% eram constituídas por pós molháveis (WP); 15,4% por granulados dispersíveis em água (WG); 38,4% por emulsões concentradas (EC); 30,8% por suspensões concentradas (SC) e 7,7% por suspensões de encapsulados (CS). Produtos agroquímicos encapsulados (de liberação controlada) e grânulos dispersíveis em água (WG) foram consideradas alternativas de menor risco de contaminação ambiental e do aplicador-manuseador, entretanto, seu uso ainda é restrito, devido à pequena quantidade desses produtos disponíveis para venda sob esta forma. Por sua vez,  há a afirmativa de que formulações pó molhável (PM) e suspensão concentrada (SC) constituem alto perigo a polinizadores como as abelhas melíferas (Apis mellifera) em sistemas agroecológicos. Portanto, a viabilidade do uso de agrotóxicos em diferentes regiões produtoras do Brasil requer ainda pesquisas para a geração de informações regionalizadas, para melhor adequação das aplicações destes produtos visando uma melhor sustentabilidade econômica, social e ambiental da propriedade rural.

Tabela 1. Relação das formulações utilizadas no estudo com os respectivos parâmetros ingrediente ativo, grupo químico, classe ambiental e classe toxicológica.

PRODUTO COMERCIAL
   I. A.
    GRUPO QUÍMICO
   C. A. 
    C. T.
 ABAMECTIN NORTOX  Abamectina  avermectina  III  III
 ACTARA 250 WG  Tiametoxam  neonicotinoide  III  III
 AMISTAR TOP  Azoxistrobina/difenoconazol  estrobilurina/triazol  II  III
 AMISTAR WG  Azoxistrobina  estrobilurina  II  IV
 CERCOBIN 700 WP  tiofanato-metílico  benzimidazol  II  I
 CERTUS
 iprodiona/pirimetanil  dicarboximida/pirimidina  II  III
 DANIMEN 300 EC  Fenpropatrina  piretroide  II  I
 FROWNCIDE 500 SC  Fluazinam  fenilpiridinilamina  I  II
 KARATE ZEON 50 CS
 lambda-cialotrina  piretroide  II  III
 KRAFT 36 EC Abamectina
 avermectina
 II  I
 MEOTHRIN 300  Fenpropatrina  piretroide  II  I
 ORTUS 50 SC  Fenpiroximato  pirazol  I  II
 ROVRAL SC  Iprodiona
 dicarbomixida  III  III
 SCORE  Difenoconazol  triazol  I  II
 SUMILEX 500 WP  Procimidona  dicarbomixida  II  II
 SULFICAMP  Enxofre  enxofre inorgânico  III  IV
 VANTIGO  Azoxistrobina  estrobilurina  III  IV
 VERTIMEC 18 EC  Abamectina  avermectina  II  III
 VIPER 700  tiofanato-metílico  benzimidazol  III  IV



Os problemas fitossanitários encontrados na cultura do morango foram diagnosticados como ataques por ácaro rajado (Tetranychus urticae) e lagarta-rosca (Agrotis spp.) e infecção por mancha-de-Mycosphaerella/mancha-foliar (Mycosphaerella fragariae), os quais ocorreram em níveis de infestação considerados baixo e médio. Ainda que estratégias de controle biológico tenham sido desenvolvidas para o cultivo do morangueiro, com vistas à garantia da sanidade dos frutos e longevidade do agroecossistema, esta técnica ainda é incipiente em termos práticos. Técnicas como o uso de acaricidas seletivos, controle biológico com predadores, indução de respostas diretas e indiretas de plantas ao ataque de ácaros, além da conscientização de consumidores e de produtores, como estratégias promissoras na mitigação dos riscos de contaminação do meio ambiente e dos frutos nessa cultura, têm sido relatadas e utilizadas por agricultores para melhor sustentabilidade de sua propriedade rural.

A metodologia desenvolvida e avaliada pode ser válida para mensurar o potencial de risco do uso de agrotóxicos, bem como para diagnosticar e nortear a tomada de decisão para estabelecimentos agrícolas eficientes e que atendam aos preceitos do agronegócio competitivo e sustentável. A substituição de agrotóxicos empregados, como biocidas, por produtos técnicos equivalentes e/ou recomendados para o mesmo fim em uma única cultura pode ser altamente vantajosa na melhoria da qualidade social, econômica e ambiental das propriedades rurais. 

 

Autores:

Décio Karam, Jessica Aline Alves Silva, João Nelson Gonçalves Rios

 

Bibliografia Consultada:

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CANTARUTTI, T.  F. P. et al. RESÍDUOS DE PESTICIDAS EM ALIMENTOS. Pesticidas: R. Ecotoxicol. e Meio Ambiente, Curitiba, PR, v. 18, p. 9-16, jan. 2008.

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RIBEIRO. M. L. et al. Pesticidas: usos e riscos para o meio ambiente. Holos Environment, Rio Claro, SP, v. 8, n. 1, p. 54-71, fev. 2008.

PINHEIRO, J.  N.; FREITAS, B.  M. Efeitos letais dos pesticidas agrícolas sobre polinizadores e perspectivas de manejo para os agroecossistemas brasileiros. Oecol. Aust., Rio de Janeiro, RJ, v. 14, n. 1, p.  266-281,  mar. 2010.

SUAVE, J. et al. Microencapsulação: Inovação em diferentes áreas. Health and Environment Journal, Joinville, SC, v. 7, n. 2, p. 12-20, dez. 2006.

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